(Apresentador/podcaster): Os indígenas não aldeados que vivem em contextos urbanos enfrentam diversos desafios, desde a invisibilização de sua identidade até os preconceitos e estereótipos que a sociedade impõe sobre eles. Muitas vezes há uma ideia equivocada de que o indígena de verdade é aquele que vive isolado em aldeias e com hábitos tradicionais. Isso considerando que a cultura indígena é dinâmica e que a migração para as cidades não significa a perda da identidade.
Sejam todos bem-vindos ao nosso podcast.
Essa é uma iniciativa do componente de comunidade da Universidade Federal do Sul da Bahia e hoje vamos repensar o conceito de comunidade e quebrar os estereótipos sobre indígenas que vivem na cidade.
Para essa conversa, temos a honra de receber Débora Martins, influenciadora, chefe de cozinha, diretora e produtora audiovisual, nossa alecrim baiano que exerce 10.000 funções. Débora, para a gente começar, você poderia se apresentar, contar um pouco sobre essas 10.000 funções que você faz na vida e compartilhar um pouco da sua origem indígena com a gente?
(Débora): Oi gente, bom dia, boa tarde, boa noite.
Eh, antes de tudo, eu queria agradecer, eh, eu acho que, eu acho não, para mim é uma honra muito grande poder estar fazendo parte desse trabalho, contribuindo de alguma forma, né? Eh…, eu sempre, sempre observei de longe as iniciativas culturais da UFSB, sempre me interessei, eh…, sempre tentei participar, mesmo que de longe, um pouco. E ser convidada para mim é uma honra gigantesca, de verdade.
Eh, então, para as apresentações, o meu nome é Débora. Eu moro em Alcobaça, que é aqui do lado de Teixeira, uma cidadezinha aqui no extremo sul da Bahia, de um litoral muito bonito, por sinal. E eu sou uma mulher indígena do povo Pataxó, né? Da, povo Pataxó do extremo sul da Bahia, porque a gente tem Pataxó em Minas também, mas aí é, é uma cultura um pouco mais distinta da nossa, apesar de sermos do mesmo povo.
Além disso, eu sou uma mulher lésbica, eu sou uma mulher autista e eu uso as minhas redes sociais para falar um pouco desses, desses recortes, desses atravessamentos. E é sempre muito massa ter um espaço assim para que as pessoas possam, possam me ouvir, possam, eh…, tirar dúvidas genuínas, né? Porque eu acho que existe muito estigma e muita, muitos estereótipos sobre, eh, a presença indígena no meio não indígena, entre aspas, e, e na internet de um modo geral, né? Então, é isso, eu tô aqui para, para contribuir com esse diálogo.
♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Primeiro que é uma honra totalmente nossa, né, receber você, que é, eu acho que é um ícone da região assim, quando o assunto é falar sobre a vivência indígena, de trazer esse resgate também à cultura, e fazer, essa tradução quase que literal para as pessoas que, às vezes, não entendem ou, também não buscam sobre o assunto. Eu queria começar já falando sobre a idealização do projeto, porque quando a gente estava fazendo esse podcast, surgiu um ponto muito interessante. Você falou que sempre se, se mostrou aberta, né, para participar desses meios e, e quando as perguntas são bem intencionadas. E por mais que a gente tinha uma boa intenção, as nossas primeiras perguntas, elas caíram num, num lugar muito “sombrio”. Que a gente acabou colocando a sociedade em si separada da sociedade indígena, né?
Você consegue discorrer um pouco para a gente sobre esse assunto?
(Débora): Sim, eh, eu acho que na verdade é um erro muito comum, né? E eu não encaro isso de uma forma, sei lá, ofensiva ou nada do tipo, porque realmente, eh, é isso, né? Eh, a sociedade não indígena, ela tem as pessoas indígenas de uma forma muito hegemônica. Então, é um grupo muito específico que vive num lugar muito específico, que tá longe de tudo, quanto é, eh, sintoma de, de sociedade, né. De, aí, “civilização”, entre muitas aspas, porque eu detesto essa palavra. Mas é um, é um erro muito comum, na verdade.
Então, assim, é o que eu costumo dizer, as pessoas geralmente colocam a gente dentro de, de estereótipos, porque para elas fica, fica mais fácil de, eh, negar a nossa existência junto da existência delas. Eh, e eu digo de um, de um, de um modo geral, né. Não falo tipo, eh, dessas perguntas que vocês fizeram, nem nada. Eh, de um modo geral mesmo.
Então, quando as pessoas pensam em sociedade, muito dificilmente elas vão pensar em pessoas indígenas integradas nessa sociedade. Muito dificilmente elas vão pensar: “Pô, deve ter uma pessoa indígena que estuda comigo, deve ter uma pessoa indígena que trabalha comigo”. Se a gente não tá assim nos nossos trajes tradicionais, com os nossos artesanatos, com os nossos grafismos, se a gente não fala abertamente sobre isso, é uma coisa que meio vai por debaixo dos panos, porque a nossa leitura social é muito preto no branco. Então, no Brasil, se você não é preto, você é branco, se você não é branco, você é preto. E, todo, e tudo isso te fica, eh, na rebarba, né. De, de, desse, desse, dessa coisa tão, tão concreta, tão sólida, eh, não é nada. Então, eh, aí vem toda a discussão do pardo no Brasil, toda a discussão de miscigenação, eh, toda a discussão de diversidade étnico-racial. Então, se você não tá num lugar específico, falando uma língua específica, usando trajes e usando adereços específicos, dificilmente as pessoas vão te ler como uma pessoa indígena.
(Apresentador/podcaster): Uhum.
(Débora): Eh, porque o imaginário que se criou da pessoa indígena no Brasil, ele é muito específico, né? E ele é muito estereotipado. Então, qualquer coisa que fuja disso, já, já não é, já tá fora do, do, do radar das pessoas não indígenas, né. Então, assim, uma pessoa indígena de pele mais clara, uma pessoa indígena com cabelo crespo, cacheado, uma pessoa indígena de olhos claros, uma pessoa indígena ruiva, loira, enfim, eh, porque na real, eu acho que a gente importa muito essa pauta racial dos Estados Unidos, né. Essa coisa do colorismo.
Só que o colorismo não se aplica a pessoas indígenas, né? O colorismo, ele pode se aplicar a, a questões de outras, de outras sociedades, outras comunidades, eh, outras diversidades étnico-raciais, mas a pessoas indígenas não, porque o que vale para a gente é o reconhecimento étnico, né. É o autoreconhecimento, que é um direito garantido a nós pela Constituição Federal. E, eh, o reconhecimento perante a nossa comunidade. Então, assim, é importante que você seja reconhecido pela sua comunidade, eh, pelo seu povo, pelas suas, pelas suas lideranças, sabe?
E, e enfim, é isso, não, as perguntas elas não vieram num tom ofensivo, mas para, para a gente que tem assim um olhar um pouco mais treinado, a gente percebe: “Não, eles separaram sociedade de sociedade indígena”, né? Mas… os indígenas estão integrados na sociedade, então não tem porque fazer essa separação.
(Apresentador/podcaster): E foi muito importante também levantar esse ponto, porque o objetivo do trabalho é, é exatamente esse, de romper com esse estereótipo, né? Tipo assim, de propor uma discussão e levar esse, esse, esse assunto para as pessoas que talvez não chegariam a, a escutar. Eh, e ter alinhado isso com você, ter, ter mudado as perguntas, ter tido essa conversa com você, levanta outro ponto extremamente importante, de que histórias indígenas precisam ser contadas por pessoas indígenas.
(Débora): Sim.
(Apresentador/podcaster): Isso é o que o projeto levanta também, né? Tipo, não só a nossa entrevista aqui, mas, eh, todo, todo o, as, os processos desse trabalho, eles vão ser, ele vai ser comunicado com você, né? A gente vai ter essa conversa para que a gente não beire estereótipos ou que, ou que a gente não beire o ofensivo, como você falou que é essa maneira de criar um, um, um estereótipo para ser mais fácil de, de lidar e negar a existência. A gente não quer, a gente não quer beira esse lugar.
(Débora): Uhum.
(Apresentador/podcaster): Eh, você falou sobre comunidade também, né? E quando a gente fala de comunidade, principalmente na hora de montar esse projeto, a gente se questionou muito quando, quando eu fui conversar com você, sobre a comunidade necessariamente precisar estar ligada a uma aldeia, né? A gente levanta que comunidade não é só um lugar físico, né? Uma, uma comunidade é um grupo de pessoas que compartilham histórias, objetivos e práticas em comum. Você sente que você tem essa rede de apoio de indígenas que estão em contexto de cidade, não aldeados, você, vocês se, se conhecem? Como, como funciona esse, esse resgate também da cultura, como vocês se unem e, e, e como funciona essa interação?
(Débora): Então, eu costumo falar que a gente é tipo formiga, né? Estamos em todo lugar e a gente sempre se encontra. É incrível! Eu estava em São Paulo esses dias e aí eu fui para um samba muito aleatório e encontrei uma parente indígena lá e a gente, enfim, conversou e trocou ideia. E, e é isso, né? Eu falo que é importante a gente reconhecer o nosso território, até para questões burocráticas e assim, a demarcação territorial, né? E a proteção do território, enfim, para proteger a nossa cultura, proteger a nossa soberania alimentar, os nossos costumes, as nossas, as nossas tradições. Mas o território ele tá dentro da gente, né? Então, assim, o território ele não só pode, como ele é esse local também lúdico, né? Também não físico, que, que tá onde a gente tá. Então, eu costumo falar que onde tem indígena tem território indígena, porque o país inteiro é uma aldeia, né? Só que construíram cidades em cima em alguns lugares.
(Apresentador/podcaster):Uhum.
(Debora): Mas eu morei em São Paulo por quase 2 anos e assim, é difícil morar longe do nosso território, porque enfim, aqui a gente tem acesso a muito mais coisas, né? E às vezes, eh, a nossa soberania alimentar, e quando eu falo de soberania alimentar, eu não falo da gente comer para sobreviver, eu falo da gente comer para manter a nossa espiritualidade, a nossa cultura. Eh, é difícil fazer isso num lugar onde é uma, uma flora diferente da nossa. Então, assim, eu não consigo identificar, eh, os matos de lá, eu consigo identificar os daqui. Eh, onde a gente não tem, assim, eu não tenho, eh, um peixe, um camarão da minha família, que a minha família é de pescadores, então, eh, é uma coisa que a gente tem que saber lidar e driblar, né? Então, às vezes eu viajava para cá, levava umas coisas. Claro, eu fazia assim, eh, rituais na minha casa, chamava outras pessoas indígenas para a minha casa, a gente consagrava a jurema sagrada, a gente acendia a fogueira, a gente fazia comida, a gente conversava, trocava ideia, ia nos lugares, ocupava espaços, enfim. Eh, porque querendo ou não, onde tem uma pessoa indígena, você pode ter certeza que ela tá se organizando de alguma forma.
(Apresentador/podcaster): Uhum.
(Débora): Então, é o que eu sempre falo, não existe ser indígena sozinha. Não existe.
Ser indígena é comunitário.
A nossa, a gente tem as nossas individualidades, é importante ressaltar isso, né? Para que a gente não caia naquele, eh, nessa coisa de, de colocar tudo no mesmo saco, mas enfim, a gente tem a nossa individualidade, a gente tem as nossas, nossas particularidades, mas essencialmente somos um povo coletivo, né? E eu falo isso do, do meu povo sim e das pessoas que eu conheço de outros povos. Não posso falar por todos os 305 povos do Brasil, porque eu não tenho contato com todos eles. Eh, mas essencialmente somos, somos pessoas que vivem em comunidade.
Então, assim, lá em casa tinha Pataxó, tinha Kariu, tinha, tem uma amiga, uma amiga minha que é de um povo da, dos Andes. Então, tinha, enfim, vários povos e São Paulo mesmo tem uma aldeia gigantesca que é multiétnica, né? Em vários outros lugares no Brasil a gente tem aldeias multiétnicas, porque isso, a gente pode estar longe do nosso território sagrado, né, como a gente diz, mas tem um pouquinho dele sempre com a gente, onde quer que a gente vá. Então, a gente não é menos indígena se sai do nosso território, né? A gente não é menos indígena se vai para a Europa, se vai para a Ásia, se vai para a África. A gente só mudou um pouco o lugar onde a gente tá, mas a nossa, a nossa cultura, o que a gente aprendeu, o que a gente sabe, a gente carrega com, com a gente para onde quer que a gente vá. Branco não deixa de ser branco porque toma banho. A gente não deixa de ser indígena porque vai para outros lugares.♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Você fala sobre essa vivência em São Paulo assim, e eu imagino que você teve que lidar muito com a ideia equivocada de que tá fora da aldeia enfraquece a sua cultura, né? Tipo, tira esse senso de pertencimento. Muito pelo preconceito e pela falta de conhecimento, né, sobre a diversidade indígena. Você já enfrentou situações em que precisou reafirmar a sua identidade nesse ambiente?
(Débora): Olha, em São Paulo foi até mais tranquilo, por incrível que pareça, mas quando eu morei no Rio, as pessoas têm uma ideia muito equivocada. E é engraçado porque no Rio de Janeiro a gente tem a maior aldeia, eh, urbana da América Latina. Porque tem isso, a gente tem, eh, aldeias, a gente tem indígenas em contexto urbano e a gente tem aldeias urbanas. A aldeia Maracanã é a aldeia urbana, a maior aldeia urbana da América Latina. E ela fica no bairro do Maracanã, exatamente colada com o estádio do Maracanã, tanto que é objeto de especulação imobiliária há muitos anos. Ali a prefeitura do Rio de Janeiro tá doida para derrubar aquilo ali há muito tempo e nunca conseguiu. Mas as pessoas lá têm uma ideia muito equivocada de, de quem é indígena e, e de onde tá os indígenas, né? Então, eu lembro de quando eu trabalhava num restaurante lá, que eu era garçonete, e uma moça que eu estava atendendo me chamou na mesa para perguntar se eu era do Pará? Aí eu falei: “Não, que eu era da Bahia”.
E ela: “Não, porque você parece com os índios lá”.
Eu falei: “Eu sou indígena, mas eu não sou do Pará”. Ela: “Mas tem indígena fora do Pará?”.
(Apresentador/podcaster): Meu Deus.
(Débora): Foi amor! vamos lá!!!
(Apresentador/podcaster): Ela viveu totalmente isso.
(Débora): Então, assim, eu fico, porque realmente tem pessoas que são leigas a esse ponto, e às vezes não é por mal, é porque realmente elas estão muito dentro dessa bolha, desse imaginário de que indígena é aquela pessoa que tá lá no Norte, que tá fazendo carinho em onça, queria eu, inclusive, e que tá morando no meio do mato, enfim.
(Apresentador/podcaster): Uhum.
(Débora): E eu culpo muito o audiovisual por isso, porque o audiovisual do Brasil colabora muito para essa visão que as pessoas têm de, de pessoas indígenas.
Tipo, “Taína” é um exemplo, mas ah, vai falar, é um filme antigo, tudo bem, mas “Cidade Invisível” é outro exemplo, aquela série da Netflix.
(Apresentador/podcaster): Totalmente recente.
(Débora): Totalmente recente, porque assim, eh, eles estão lidando com, eh, elementos da cosmovisão indígena, não é lenda, não é conto de fadas, né? São elementos.
(Apresentador/podcaster): Sagrado!
(Débora): Exatamente! Então, tipo, você não vai pegar, eh, os orixás e transformar numa série e falar: “Olha que massa essa lenda africana”. Você não vai fazer isso, é um desrespeito gigantesco.
(Apresentador/podcaster): Tem outro exemplo também que, que surgiu recentemente, que eles, eh, estavam pensando em fazer uma, não sei se se rolou mesmo, eu fiz questão de silenciar das minhas redes sociais, mas que, eh, eles estavam pegando o sagrado indígena e transformando em histórias de terror, filmes de terror, algo assim. Você chegou a ver?
(Débora): Oi, eu vi um trailer disso, acho que foi um trailer, um, não sei se disso, mas eu, eu não sei se foi para frente, porque foi muito criticado. Foi muito criticado. Eu acho que não vai para frente, a gente espera.
A segunda temporada de “Cidade Invisível”, porque a primeira recebeu bastante críticas por conta da forma como abordou essa questão, a segunda temporada já veio com uma roupagem completamente diferente. Inclusive eles, eles colocaram Graci Guarani na direção, que é uma cineasta indígena excelente! Ela assim, impecável! No trabalho que ela faz. Só que aí uma história que se passava no Rio de Janeiro, do nada, foi se passar no Norte, velho, como se a história indígena fosse específica daquele lugar.
Porque é cômodo para eles, é cômodo para eles mostrar aquilo porque já tá tão no imaginário da galera que fica mais fácil de assimilar. Porque se eles fossem continuar a história no Rio de Janeiro, aí eles iam ter que ter um trabalho pra, de conscientização para mostrar para a galera que tipo, ó, tem indígena no Sul, tem indígena no Rio de Janeiro também.
E as pessoas iam ficar assim: “Meu Deus, como assim?”. Mas aí foi um serviço, foi um serviço gigantesco. Eles poderiam ter feito um trabalho maravilhoso e continuado a história no Rio de Janeiro, sabe?
Então eu culpo muito, porque assim, se você vai pegar o, as produções audiovisuais que tratam narrativas indígenas nos Estados Unidos ou em outros lugares, você vai ver que é completamente diferente, assim, é um dos poucos momentos que eu babo ovo para os Estados Unidos, porque realmente as produções audiovisuais indígenas de lá são muito fodas. Então, tipo, a gente tem “Reservation Dogs”, que é uma série muito boa, inclusive tem na Disney, assistam, que é tipo um grupo de indígenas adolescentes fazendo coisas de adolescente. Então não tem aquela coisa de: “Ai, meu Deus, eu preciso”, mas assim, fazendo coisas de adolescentes que são indígenas.
Então tem toda uma questão cultural por trás, tem toda uma questão espiritual que envolve. E aí mostra aquela fase que tipo, ah, eles são jovens e estão um pouco renegando a cultura indígena, etc, etc. E aí mostra esse, esse resgate deles, enfim. Eh, e como funciona a vida dessas pessoas nas, nas reservas.
Tem também “Echo”, que é da Marvel, eh, que é uma, ela não é uma, ela não é uma heroína, né? Ela é uma anti-heroína, ela não é nem vilã, nem heroína, que é uma mulher indígena com deficiência e eles contrataram uma mulher indígena com deficiência para interpretar o, o papel da Echo, que é do, daquele gavião arqueiro, sei lá, esqueci o nome agora. Mas enfim… da Marvel.
E é uma parceria que a Disney fez com a Marvel e eles contrataram uma equipe, tipo, uma equipe gigantesca de pessoas indígenas. Falaram: “Não, a gente vai fazer isso aqui certo”. E vei, é tipo assim, outra, outra coisa, coisa de outro mundo, sabe
(Apresentador/podcaster): É o exercício de abrir o olho e enxergar a realidade de fato, não, não se apoiar no imaginário preconceituoso da sociedade para produzir alguma coisa.
(Débora): Não dá mais pra gente produzir obras do audiovisual e de qualquer outra coisa eh falando sobre narrativas indígenas sem pessoas indígenas. Não dá.
♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Além de tudo, no final das contas, é um comércio, né? E gera e gera dinheiro. As pessoas que produzem esse tipo de conteúdo, que que focam na história, que se apropriam desse desse lugar, elas vão receber por por aquilo e nada mais justo do que pessoas que estão naquela realidade recebam por esse trabalho, né?
(Débora): Com certeza, total.
(Apresentador/podcaster): Eh, você falou do audiovisual, mas eu acho que a mídia também tem muita influência nessa percepção, né? Você vê que a representação hoje dos povos indígenas contempla eh as diferentes realidades dos indígenas, principalmente os não aldeados que vivem nas cidades?
(Débora): Sim, ah, não. Eh, é isso. Eh, se eu acho que a mídia, ela segue perpetuando o que foi criado há 1500 anos atrás, essa imagem de que, aí a gente é assim, tem o cabelo assim, tem o olho assim, fala assim, mora assim. E eu acho que a mídia, assim, ela tá tentando trazer outras narrativas, mas ela não tá saindo desse dessa caixinha confortável, né, de retratar a gente de tal forma.
Então, assim, a gente tem esse documentário “fala da terra”, que é muito interessante. A gente tem, enfim, a gente vê hoje pessoas indígenas eh na moda, eh na música, na dramaturgia, no teatro, na no cinema, eh, e aí a gente, eu acho que quem acompanha esses artistas consegue ter uma dimensão maior de quão diverso a gente pode ser, sabe? E de como não é um computador, um celular ou um carro que vai eh minar a nossa cultura de quem a gente é.
Então eu acho que a mídia, ela ainda tá nesse lugarzinho confortável, mas o que tá fazendo ela dar essa esse giro de 180 graus são as próprias pessoas indígenas que estão ocupando esses espaços.
(Apresentador/podcaster): E é importante ressaltar isso, porque é colocar vocês como agentes de transformação, né? Não tem ninguém que faça isso por vocês, é vocês por vocês.
(Débora): Sim.
(Apresentador/podcaster): Você falou que as pessoas que consomem esse conteúdo entendem mais essa diversidade e conseguem ter uma visão mais ampla sobre a comunidade indígena. Você quer deixar alguma indicação de perfil, documentários, série, eh e além de entretenimento também?
Você já deixou dois que eu já anotei aqui, três, na verdade, né?
(Débora): Ah, sei lá, Frozen… Frozen. É um ótimo exemplo. Eu acho que Frozen é um excelente exemplo de cultura indígena que foge do que as pessoas esperam que uma cultura indígena pareça, né? Porque, tipo, ah, todo mundo acha que a Elsa é branca, ela lá com a pele bem clarinha, com o cabelo platinado, com o olho claro, nunca que, mas a Elsa e a irmã dela são pessoas indígenas.
E o filme, o Frozen 2, ele traz isso muito escancaradamente, né? Inclusive, a Disney fez um trabalho com a comunidade indígena que inspirou o povo da Elsa. Então, no filme 2, que é muito bonito, eu acho muito bonito inclusive.
(Apresentador/podcaster): Nossa, eu assisti esse desenho na sessão da tarde, eu chorei de tarde, eu tava chorando enquanto assistia. Ele é muito lindo! Muito lindo.
(Débora): Sim. E tipo, toda a história de delas resgatarem a cultura da mãe, da cultura delas, e de como elas se redescobriram nesse processo, é assim, é literalmente eles estão desenhando como funciona pra nós o resgate, porque assim, não existe um resgate tipo: “Ai, a minha bisavó era indígena, como que eu faço pra achar?”. Não é assim que funciona.
O resgate, ele começa dentro de casa, é você conversando com a sua família, é você perguntando pros seus mais velhos, perguntando histórias, perguntando de onde veio, tal. Tipo, depois do meu resgate que eu fui entender o que que tinha acontecido com o meu avô, pô.
Ele saiu do território na década de 50. Na década de 50 foi quando aconteceu o fogo de 51 com o povo Pataxó, e foi quando todos os fazendeiros da região se uniram pra tocar fogo em em todas as aldeias da região.
(Apresentador/podcaster): Uhum.
(Débora): Então, tipo, muitos fugiram, muitos morreram, muitos resistiram. Então, assim, nós temos, assim, sequelas do tempo, de coisas que aconteceram muito tempo atrás, mas que reverberam na nas gerações que vão surgindo, sabe? Então, assim, se eu não fosse atrás do meu resgate, ia ser uma história que tinha sumido, uma história que ia morrer por conta desse episódio, assim como acontece com várias outras pessoas. Então, às vezes as pessoas falam: “Ah, mas não é indígena de verdade porque não tá numa aldeia, véi”. Não é a escolha minha, sabe?
(Apresentador/podcaster): Eh, literalmente tá tentando apagar a gente, a gente tá lutando contra a sociedade, assim, né? Todo um contexto de tentativa de sufocamento. E aí a pessoa: “Ah, você não tá na aldeia, você não é indígena”.
(Débora): Exatamente. E é isso, é é uma animação que mostra muito esse trajeto que a gente faz. Acho que Moana também traz isso, essa conexão dela com a avó e com o mar, e isso é muito significativo. Eh, eu acho que é muito significativo pra qualquer Pataxó que assista, porque a gente tem essa coisa com o mar, né? A gente aqui que é do litoral, eh, porque o povo Pataxó, ele literalmente vem da água. O Tio Pai, que é o deus da água, ele literalmente criou todas as pessoas Pataxó.
Então, a nossa história, ela vem daí. A gente se reconhece muito. Eu acho muito legal quando a gente assiste alguma coisa e você reconhece. Eh, tem Raya também, A Princesa e o Dragão, que ai, gente, eu amo muito esse filme, eu assisto todos os dias.
(Apresentador/podcaster): Nossa, é muito bom!
(Débora): Eu amo esse filme. Porque, tipo, eu acho que é a primeira vez que eu assisti uma coisa e falei: “Gente, ela é a minha cara”. Ela é a minha cara. Ela é a minha cara, assim.
(Apresentador/podcaster): A mídia usou, com certeza, tava no mood board, com certeza, tinha uma foto sua estampada, tipo, falaram: “É ela”.
(Débora): Gente, é igual, somos iguais. Juro, somos iguais. Inclusive, sáficas.
(Apresentador/podcaster): Olha só. Você chegou a olhar, tipo, fotos dela nas redes sociais, eu acho, né? Tipo, postar alguma coisa, lembrar algo assim?
(Débora): Foi. Eu falei que eu lembro que numa época que o pessoal tava usando inteligência artificial pra fazer: “Ai, como eu ficaria se eu fosse um desenho da Disney?”. Eu falei: “Gente, eu não preciso, já fizeram pra mim”.
(Apresentador/podcaster): Amor, eu não preciso, a Disney me usou de referência.
♫♫♫
Débora: Olha, eu tenho, tipo, assim, eu tenho uma lista de perfis pra indicar. Eu posso mandar pra você por mensagem depois.
(Apresentador/podcaster): Perfeito… Perfeito…
(Débora): Pessoas indígenas que fazem, tipo, review de games, de literatura, eh pessoas indígenas da cozinha, além de mim, eh na comunicação, no jornalismo, no esporte, na música, enfim, eu tenho uma lista imensa. Eu tenho uma playlist no Spotify só com cantores indígenas, enfim, vou mandar tudo.
(Apresentador/podcaster): Manda também, por favor, eu quero muito. Vamos disponibilizar tudo, vou vazar tudo. Muito bom!
(Débora): E vê, tem, tipo, é muito foda! Eu tava escutando essa playlist esses dias enquanto eu tava cozinhando, e assim, a playlist vai de 100 a 200, porque são estilos muito diferentes. Tem hora que eu tô, tipo, ouvindo um heavy metal indígena, e tem horas que eu tô ouvindo rap, e tem horas que eu tô ouvindo uma música mais vibe MPB, tem horas que eu tô ouvindo sei lá.
Daqui a pouco vai ter ópera também. Mas é muito diverso, muito diverso mesmo. Essa playlist tá muito massa. Eu vou mandar depois. E nossa, eu tenho muita indicação, muita indicação. Eu acho que eu nem consigo lembrar tudo agora, mas eu faço uma listinha depois e passo.
(Apresentador/podcaster): Sim… Eh, o nosso podcast, ele vai tá disponível tanto no Spotify quanto no YouTube, e na descrição vai ter o link do nosso site, onde vai ter todas as indicações que você mandar pra gente.
(Débora): Ótimo, excelente!
(Apresentador/podcaster): Então, pra pessoa que se interessar, quiser abrir a cabeça, desconstruir esses estereótipos, é só clicar no link que deve tá na descrição desse podcast.
♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Você indicou vários perfis, não vai indicar o seu não?
(Débora): @alecrimbaiano no Instagram. @DéboraPataxó no TikTok, e só. Não me acham no Twitter.
(Apresentador/podcaster): Não me procurem, não me acham, não vão atrás de mim.(risos).
(Débora): Além do AlecrinBaiano no YouTube também. Eu não tô postando nada agora, mas mais pra frente eu vou começar a postar, porque esse ano eu vou lançar o Jokamas, que é a minha web série documental sobre a alimentação tradicional do povo Pataxó.
E eu quero muito que vocês assistam, porque tá, gente, tá muito bonito, juro, todo mundo chorou em todas as gravações. Choramos muito. Tá muito bonito, tá muito sensível. Eh, Jokanas significa mulheres em Pataxóhan. Em cada episódio, eu convidei uma mulher do povo Pataxó pra cozinhar comigo.
Então, assim, elas abriram as portas das suas cozinhas, dos seus territórios, pra que vocês possam ter acesso também, eh conversando sobre cultura, sobre política, sobre feminismo, sobre muitas coisas, muitas coisas mesmo. Ai, eu fico arrepiada só de falar, juro. É assim, eu estou parindo um filho e colocando no mundo pra vocês. Então, espero que vocês assistam e gostem, porque tá muito lindo, muito lindo mesmo.
(Apresentador/podcaster): Você tava em São Paulo esses dias trabalhando na pós do Jokamas?
(Débora): Sim. E tava trabalhando no nosso podcast, tá ficando lindo! Quem tá fazendo a edição é a Natália Tupinambá, que é uma cinegrafista excelente, foderosa, a bicha arrasa. Ela esteve aqui no extremo sul, acho que novembro do ano passado, eh nós duas fizemos demos uma palestra no Cine 73 falando sobre a representatividade indígena no audiovisual.
E aí eu falei: “Cara, você não quer editar Jokamas, por favor?”. Aí ela: “É isso”. Foi isso, ela tá lá editando. Sexta-feira agora a gente tem o nosso primeiro encontro pra ver o primeiro corte. Eu já tô me preparando pra chorar, porque eu sei que tá lindo. E e é isso. Depois dessa etapa, a gente vai pra etapa de de edição de som, e depois acessibilidade e depois jogar pro mundo. É isso.
(Apresentador/podcaster): Tem previsão mais ou menos de quando pode sair?
(Débora): Não tem previsão. Eu não vou dar previsão, porque a última previsão que eu dei não vai dar certo. Então, não. Joga pro Lúdico.
(Apresentador/podcaster): De hoje pra 10 anos sai.
(Débora): Isso. Não, esse ano ainda sai, isso eu prometo, esse ano ainda sai. Tenho que editar no CapCut. Escrevendo a legenda na minha mão? (risos)
♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Você trabalha com essa produção, né, de audiovisuais mais longas. Já tem um conteúdo no YouTube também, que nasceu eh como um projeto audiovisual, né, que também é sobre culinária?
(Débora): Sim.
É o Alecrim Baiano demarcando territórios virtuais.
(Apresentador/podcaster): Chique. Falando de territórios virtuais, qual a importância de ocupar o espaço digital pra fortalecer a narrativa, essa diversidade indígena, e como o público tem recebido seu trabalho?
(Débora): Véi, é muito interessante falar sobre isso, porque é aquilo, né? Como eu quando eu falei de que o território é onde a gente tá, isso inclui a internet também. Ele é um território não físico, né?
Eu acho que a galera desmerece muito o ativismo na internet, mas às vezes é uma ferramenta que a gente tem pra se conectar com outros povos. Se não fosse a internet, eu não teria conseguido alcançar tantas pessoas de tantos povos diferentes que agregam no meu trabalho, que eu gosto de acompanhar, que eu gosto de de ver trabalhar, de ver ascender. Ocupar esse território virtual, é tá na internet mostrando meu trabalho, falando sobre cultura, falando sobre uma coisa que eu gosto muito de falar, que é soberania alimentar, principalmente soberania alimentar dos povos indígenas, e é ver o conteúdo de outras pessoas. Então, assim, eu acho que a grande bronca que pessoas racistas, preconceituosas têm é ver uma pessoa indígena na internet e falar, apontar que a gente não é indígena porque não tá na internet. Mas eu acho que a grande bronca dessa galera é que, mesmo estando nesses lugares, a gente não perde a nossa cultura, muito pelo contrário, a gente consegue usar isso pra fortalecer a nossa cultura. Então, assim, ah, eu tô aqui em Alcobaça, mas eu já entrei em contato com o pessoal, né, que tá na aldeia, eu já falei com uma liderança, eu já falei com um parente que tá mais distante.
Então, assim, a gente se organiza, se junta, a gente ajuda, tipo, na época das enchentes mesmo, que o acesso ficou impossível pras aldeias, a gente conseguiu ajuda através da internet. Eu fiz vaquinha, eu fiz eu reuni informações de pontos de coleta, eh mobilizei a galera pra levar doação. Então, assim, é muito mal caratismo também de… de algumas pessoas achar que, sei lá, a internet não serve de nada, porque pra gente que tá no interior, às vezes é a única forma que a gente tem de colar numa manifestação, de ajudar num protesto, tal.
Nem todo mundo mora em São Paulo pra tá na Avenida Paulista fazendo passeata contra o marco temporal. Infelizmente, não é todo lugar que a gente vai conseguir mobilizar uma uma… um protesto desse tamanho, sabe? Então a gente faz o que dá, e a internet ajuda muita gente nisso.
(Apresentador/podcaster): Uhum. Eu acho também que é muito mal caratismo eh tirar essa força da internet, né? É você querer suavizar a força da internet na hora de julgar pessoas indígenas que usam desse espaço pra existirem, se conectarem, militarem, lutarem por por quem elas são, porque hoje, praticamente tudo acontece na internet. Então, como você vai falar que esse espaço, ele não é um espaço válido pra que isso aconteça? Não existe isso, é é você ainda é desacreditado até no próprio cotidiano da vida, assim.
♫♫♫
(Débora): E sobre a diversidade que você perguntou, eu acho que a internet, ela é isso, né? A gente a internet, ela pode ser boa ou ruim. Você vai ter que filtrar o que você consome. E o algoritmo, ele tá servindo aí pra isso, né? Então, assim, ah, apareceu isso na minha timeline. Não existe aparecer isso aleatoriamente na sua timeline, porque o seu algoritmo, ele é adestrado pra que isso apareça na sua timeline.
Então, assim, quando você é uma pessoa que consome eh artistas indígenas, aí trabalhadores, profissionais, etc, etc, eles vão aparecer. Então vai aparecer recomendação, vai aparecer isso, vai aparecer aquilo. Tem muita gente assim, assim, isso é uma opinião pessoal, tá? Eu acho que tem muito indígena fazendo muito desserviço na internet também. Mas é isso, vai ter coisa boa e vai ter coisa ruim, e cabe a você filtrar o que você assiste e consome.
(Apresentador/podcaster): Eh, você falou sobre algoritmo, sobre bolhas, eh quando eu penso nesse assunto, eu começo a pensar sobre furar as bolhas, né? Quando o seu conteúdo, ele alcança uma pessoa que não tá acostumada a ver o seu conteúdo. E ultimamente, nos últimos anos, teve uma onda de intolerância e que as pessoas têm se sentido confortáveis a serem preconceituosas e ignorantes.
Eh, você acredita que esse comportamento tem relação com o cenário político recente? E de alguma forma isso prejudicou seu trabalho e de colegas indígenas também?
(Débora): Sim. Eu acho que assim, apesar de, do meu conteúdo às vezes furar a bolha, eu ainda tô muito blindada dentro da minha comunidade.
(Apresentador/podcaster): Aham.
Débora: Então, acabou que não não chegou a prejudicar substancialmente, mas vários outros parentes foram prejudicados, porque trabalham diretamente com o público, sabe? Assim, diretamente, que eu falo pessoalmente mesmo.
(Apresentador/podcaster): Aham.
(Débora): Então, é complicado, porque querendo ou não, o que a gente produz, eh sendo pessoas indígenas e como eu falo, nós somos eh de um povo que a gente é comunitário, né? A gente é essa coletividade, eh querendo ou não, a gente acaba representando de alguma forma, porque é isso, né? Quando uma pessoa branca erra, olha, fulano de tal da Silva errou. Mas quando uma pessoa indígena erra, é assim, esses índios é todo assim.
Então, a gente precisa ter muito cuidado com o que a gente tá falando e com o que a gente tá postando, porque as pessoas tomam isso como uma verdade absoluta e é uma questão da comunidade inteira. Então, assim, ah, eu falei no Twitter que não acho legal as pessoas usarem adereços indígenas no Carnaval como fantasia. E aí, eh uma pessoa veio falar: “Ah, mas o cacique Raoni falou que pode”. Ele é uma liderança incrível, ele é uma liderança incrível, e ele representa muito, eh é um peso gigantesco o que ele fala, mas ele não fala por todas as pessoas indígenas.
(Apresentador/podcaster): Sim.
(Débora): Eu falei: “Gente, essa é uma opinião minha. Eu não acho legal, e eu conheço outros parentes que também não acham legal, e tem parentes que acham e tem parentes que não ligam”. E é isso, gente, nós vivemos em comunidade, mas a gente tem nossa particularidade, a gente tem nosso eu, a nossa essência, somos INDIVÍDUOS dessa comunidade. Então a gente vai pensar por si.
A gente não tem um único cérebro que funciona pra todos os indígenas do mundo. Eu sei que vocês gostariam muito que fosse assim, mas não é assim que funciona. Então, então cai muito nesse lugar, sabe? De tipo, elas levarem muito, tipo: “Ai, isso que Débora falou é a verdade absoluta pra todas as pessoas do povo Pataxó”. Não é, gente. Eu não tô falando nem por mim direito, quanto mais pelo meu povo. Não sou, pelo amor de Deus.
(Apresentador/podcaster): Calma também. (risos)
(Débora): Então, então, eh eh prejudicou de certa forma, né? Eu acho que as pessoas eh tomaram um pouquinho mais de coragem pra serem intolerantes.
(Apresentador/podcaster): Aham.
(Débora): Então, assim, e as pessoas acham que a internet blinda muito eles de muitas coisas, né? Então, eles acham que pode falar tudo, que não vai ter consequência, e segue assim, né? Mas nos últimos tempos, assim, nos últimos meses, eh… eu acho que eu consegui eu acho que eu bloqueei tanta gente que eu consegui filtrar o que eu vejo, o que eu leio.
(Apresentador/podcaster): Criou a bolha da bolha. É uma bolha dentro da bolha, super protegida.
(Débora): É. Nossa, sério! As pessoas falam: “Ah, você tem que sair da sua zona de conforto, você tem que sair da bolha”. Gente, às vezes não, porque eu não quero ler certas coisas. Sei lá, você sair da sua zona de conforto e ah, sei lá, eu pedalo todo dia, sair da minha zona de conforto e ir fazer uma caminhada ao invés de pedalar, não é ler micro agressões, crimes na internet, agressões, né?
(Apresentador/podcaster): Sim.
(Débora): Então, é isso, eh mas é o que eu sempre falo pras pessoas que estão mais próximas a mim. Eu falo: “Gente, se se protejam de todas as formas, sabe? Eh, se você acha que aquela pessoa tá falando isso só pra te perturbar, só bloqueia, véi, não dá corda, sabe? E segue a sua vida”. Assim, como disse Susana Vieira, “o que é uma ou duas pessoas que me odeiam para 130 milhões de brasileiros que me amam?” risos
(Apresentador/podcaster): É sobre mesmo!
(Débora): Eu tenho a minha comunidade, sabe? Eu tenho uma galera que engaja o meu trabalho, tenho uma galera que curte o que eu posto. O que que eu vou ligar pras pessoas que estão ali só? E aí, a última, a última fofa que que mandou um hate pra mim…
(Apresentador/podcaster): Fofa… muito bom. (riso)
(Débora): …eu descobri até, eu descobri até onde ela trabalhava, descobri quem era a chefe, mandei tudo pra chefe dela e beijos, tchau e benção. E é isso, pô. E e é isso, sabe? Eu acho que as pessoas estão muito à vontade pra cometerem crimes na internet e acharem que vão sair ilesas com isso.
(Apresentador/podcaster): Uhum… Você acha que falta política pública nesse sentido de reavaliar esse cenário, esse esse ambiente?
(Débora): Eu acho que falta uma fiscalização, uma ciber fiscalização mais atenta. E eu acho que o Twitter do Elon Musk e o Instagram do Mark Zuckerberg tem dado muita brecha para que essa galera fale o que quer sem punição, sabe? Então, eu acho que, tipo, a flexibilização, talvez, de leis que protejam a gente na internet atrapalha muito.
E aí a gente ficou sem Twitter por causa disso, isso e isso, mas sei lá, foi só o cara pagar e voltou tudo no chorume que estava. Então, acaba que o dinheiro, no final das contas, sempre fala mais alto. Eh, e a gente fica assim, à mercê, porque a gente precisa da internet e das redes sociais para criar o conteúdo, tem muita gente que monetiza em cima disso, mas ao mesmo tempo a gente tá suscetível a todo tipo de ataque.
(Apresentador/podcaster): É tentar tirar o melhor de um ambiente hostil, né? Tipo, é quase uma missão impossível, porque é uma tarefa que não devia ser só da pessoa que tá ali, né? Devia ser dos representantes dessas redes sociais, do próprio governo. Só que não adianta pedir isso pro Elon Musk, eu acho que pro Mark Zuckerberg é meio que…
(Débora:) É mais fácil tirar leite de pedra.
(Apresentador/podcaster): Tava tentando usar, procurar uma expressão que não que não precisasse ser censurada do podcast. (risos)
Eh, em questão de política, você acha que houve avanços significativos nos direitos da população indígena nos últimos anos?
(Débora): Eh… então… não! (risos)
(Apresentador/podcaster): Você acha que isso tem relação com o antigo governo ou o governo atual também não chegou junto?
(Débora): É, o governo atual não chegou junto.
(Apresentador/podcaster): Foda, velho.
Débora: E e sabe o que é pior? Eu acho do governo atual pro governo passado, é porque o governo atual deu esperança pra gente.
(Apresentador/podcaster): Levantou bandeira.
(Débora): Que ia ser melhor.
(Apresentador/podcaster): Uhum.
(Débora): É.Então, assim, foi todo aquele teatro de subir a rampa, de, ah, vamos assinar um compromisso, Ministério dos Povos Indígenas. O Ministério dos Povos Indígenas está morto!
(Apresentador/podcaster): Meu Deus!
(Débora): Ele nasceu morto! Ele nasceu cansado! Então, é isso.
Ele demarcou seis territórios, bem porcamente, porque um dos territórios deu conflito, porque ele demarcou como se fosse de um povo, sendo que dois povos viviam naquele mesmo território e deu briga, deu confusão e teve que, enfim, servir para resolver. E foi isso. E foi literalmente isso, sabe?
Eh, eu acho que o Ministério dos Povos Indígenas, ele é bem midiático. Então, assim, eu acho que uma das poucas coisas que que acho que até conseguiram essa semana foi que agora as pessoas indígenas conseguem colocar o nome do povo como sobrenome, tipo, na identidade, sem precisar do RANI, que é o um é um documento que a FUNAI expede para para dizer quem é indígena e quem não é indígena e é extremamente burocrático, com umas coisas muito surreais e só. Então, assim, eu acho que a gente tá, a gente estava na escala zero, agora a gente tá na escala 0,2.
(Apresentador/podcaster): É bizarro, né? Pensar que esse esse direito de colocar um sobrenome, algo tão simples, veio agora, tipo, veio veio agora.
(Débora): Sim, precisar de um órgão de um órgão institucional para dizer quem é indígena e quem não é.
(Apresentador/podcaster): Uhum. E esse é um tipo de informação que só chega para a pessoa se ela tiver cercada de pessoas que discutem e falam sobre isso, né? Tipo, daí vem a importância também de de seguir conteúdos, pessoas que conversem, que falem sobre políticas indígenas, né?
(Débora): Com certeza!
♫♫♫
(Apresentador/podcaster): Amiga! Eu acho que a gente conversou sobre tudo.
(Débora): Ótimo! Foi excelente!
(Apresentador/podcaster): Perfeito!
(Débora): Eu amei!
(Apresentador/podcaster): Muito… muito… muito obrigado.
Foi delicioso conversar com você!
(Débora): Eu te agradeço, amei muito, muito mesmo.
(Apresentador/podcaster): Quer deixar um último recado?
Mandar um beijo pra mãe e pro pai? (risos).
(Débora): Ah, eu acho que deixar um um recadinho assim, uma reflexão pra galera. Eu sei que parece muito que o mundo tá acabando, mas a gente não pode deixar e essa é uma filosofia do Ailton Krenak, gigante, imenso! Acho que a gente não pode deixar se abalar por essa por esse alarmismo, porque o mundo tá acabando há muito tempo, gente. Há muito tempo o mundo tá acabando.
Tipo assim, eh, eu sei que parece que vai acabar a qualquer momento, que tá muito quente, mas a gente não pode se apegar a essa narrativa alarmista, porque senão a gente não faz nada. A gente fica sentado e não faz nada. Então, assim, enquanto a gente se preocupa, a gente pode estar fazendo coisas para adiar o fim do mundo.
Então, é isso, vamos respirar fundo! Vamos adiar o fim do mundo e leiam Ailton Krenak.
(Apresentador/podcaster): Perfeito, muito obrigada!
(Débora): Obrigada.
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